É possível evitar o stress?

Por Letícia Machadoª

Numa sociedade repleta de exigências, onde sabe-se tudo o que acontece a todo tempo à distância de um clique, é natural que pela sobrecarga de informação, deveres e prazos, haja stress. Durante muito tempo propagou-se a ideia de que o stress era uma ameaça e este recebeu inclusive o “carinhoso” apelido de matador silencioso. Muitos recomendam evitar o stress, mas ninguém fala sobre o custo que isso tem.


A verdade é que o stress tornou-se o inimigo número um de toda uma população mundial que luta todos os dias para evita-lo a todo custo. Não é a toa que surgem a todo instante cursos para que você se livre do stress para sempre! Durante minha experiência profissional vi muitos pacientes oncológicos frente a realização de transplantes de medula óssea – um tratamento muito delicado que implica muitos riscos – vivendo suas vidas com medo e com níveis altíssimos de stress. Eu, assim como eles, nessa altura, também acreditava que o stress era prejudicial e que piorava o estado emocional deles, até que um dia ele virou meu inimigo pessoal. Aos 26 anos tive um infarto do miocárdio (Isso mesmo, aos 26 anos!). A primeira recomendação médica – para além de uma dieta restritiva e de uma rotina regrada de exercícios – foi EVITAR o stress. Mas como qualquer um de nós pode evita-lo? Como podia eu naquela altura evitar o stress com a notícia de que havia tido um infarto, em meio a uma tese de doutoramento em um país diferente, longe da minha família e dos meus amigos mais próximos? Como seria possível evitar o stress?! Foi a partir disso que meu interesse e percepção sobre esse tema mudaram e espero poder mudar as suas também.


Os estudos mais recentes com humanos 1,2,3 – digo isso porque boa parte dos estudos sobre stress foram feitos com animais – tem apontado que altos níveis de stress provocam morte prematura, mas apenas nas pessoas que acreditam que o stress é prejudicial. As pessoas com altos níveis de stress que não tem a crença de que ele pode mata-las tendem a ter uma melhor qualidade de vida e vivem mais. Isso quer dizer que o que mata as pessoas não é o stress em si, mas sim a combinação de altos níveis dele com a CRENÇA de que ele é prejudicial! Isso é importantíssimo na medida em que cada vez que partilhamos uma notícia de como o stress pode matar, contribuímos para aumentar a crença nas pessoas de que o stress mata, o que, inevitavelmente, as empurra ainda mais para perto da morte! É por isso que avaliar os estudos científicos, nos atualizarmos constantemente e ter atenção ao que reproduzimos é tão importante.

Mais do que isso, a ciência tem mostrado resultados ainda mais interessantes. As pessoas que viveram situações com altos níveis de stress no passado são aquelas que tem mais certeza de que suas vidas tem sentido. As populações de países com maiores níveis de stress são as com maior expectativa de vida e as que reportam maior felicidade. Esses resultados acabam por indicar que o stress e o sentido ou significado de vida estão altamente relacionados. Em suma, uma vida feliz inclui stress4. As pessoas com altos níveis de stress tendem a ser aquelas que estão a viver suas vidas da forma mais próxima ao que sonharam. É como se ele fosse quase que um efeito secundário de lutar pelos nossos sonhos e correr atrás de nossos objetivos. Ele está lá, bem ao lado de tudo o que queremos.

O erro que boa parte de nós comete é acreditar que o stress é prejudicial. Quando o percebemos dessa forma, qualquer coisa que minimamente nos gere stress começa a ser vista como uma ameaça ao bem-estar de nossas vidas e isso nos causa irritação, revolta, raiva, ansiedade. Não é à toa que vemos mães que tanto sonharam com uma família querendo ver-se livres dos filhos por pelo menos uma semana, ou então profissionais com as carreiras que sempre sonharam querendo logo uma reforma. Quando vemos o stress como ameaça, paramos de valorizar o significado que aquela situação tem para nós. É quase como se lutássemos pelo prémio, subíssemos ao pódio e não recebêssemos nada.

Aqueles pacientes que mencionei antes à beira do transplante de medula estavam a perceber o stress como uma ameaça adicional às suas vidas, enquanto que eles estavam estressados justamente porque queriam viver! O stress estava ali como um efeito secundário do desejo de seguir com suas vidas livres da doença. O que os faria viver melhor naquele momento seria focar no motivo de quererem sobreviver, no motivo subjacente ao que os fez aceitar realizar aquele procedimento. O foco ali eram as coisas pelas quais valia a pena viver.

O que a ciência nos mostra, e sobre o que quero que você reflita hoje é que, em última instância, abrir mão do stress é abrir mão das coisas que mais tem significado em sua vida e isso pode comprometer tudo pelo o que você vive. Pode lhe custar toda a sua vida. Ao invés de ser um sinal de alerta para pararmos, o stress deveria ser um indicador de que estamos comprometidos em atingir aquilo que nos é importante, aquilo que dá sentido e significado às nossas vidas. Mais do que evitar o stress devemos aprender de forma emocionalmente inteligente a fazer dele um aliado para que não percamos oportunidades nem limitemos nossos sonhos.

 

VEJA OUTROS TEXTOS

ª Leticia Machado é Psicóloga Clínica e Coach Pessoal e Profissional com a grande missão de vida de ajudar as pessoas a enfrentar desafios, motivá-las a serem o melhor que puderem, fazer com que elas sintam-se bem consigo mesmas e com o mundo ao seu redor, e, sobretudo, encorajá-las a serem sempre MAIS – mais felizes, mais realizadas, mais bem sucedidas.

1 Comment on “

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *