O jogo, o tempo e o espaço nas relações amorosas

Por Elaine Andradeª

Neste artigo vou falar sobre o jogo dentro das relações amorosas: aquela mania que mulheres e homens têm de dizer ou fazer uma coisa pensando outra, apenas para ver ou perceber a reação do(a) parceiro(a); Falarei também sobre o tempo: aquela espera necessária que os apaixonados, às vezes, desconhecem quando se envolvem numa relação; e sobre o espaço dentro das relações: aquilo que, não raramente, pode ser tirado ou sufocado pelo parceiro na relação com o outro quando cegos de paixão.


O jogo

Comecemos então pelo jogo. Muitas pessoas no ínicio de relacionamentos têm medo de se expressarem honestamente. Dizem não, quando querem dizer sim. Ou dizem sim, mesmo se quisessem dizer não. Elas evitam falar o que estão sentindo até perceberem qual é a “posição” do outro. Como se fosse uma obrigação do outro começar esse processo de aproximação, enquanto esperam passivamente para “ter certezas”.


Há pessoas que, por exemplo, mantém-se frias ou demoram a responder as mensagens no telefone para “fazerem-se difíceis” – esse é o chamado jogo da conquista. Talvez até seja o nosso lado infantil manifestando-se nessa brincadeira que tem lá algum prazer. Por outro lado, isso também pode estar a mascarar um medo e insegurança por não saber o que o outro quer.


Esse jogo tanto pode desafiar quanto cansar o outro, mas de qualquer das formas ele não é uma segurança para manter um relacionamento saudável. O outro pode se cansar, e pode não conseguir interpretar bem as “regras” dessa interação, geralmente mal elaboradas ou precipitadas em si mesmas. Uma relação regida por incompatibilidades entre o que pensamos e mostramos ao outro, em geral, leva a um sentimento de frustração e solidão, mesmo que esse desafio da sedução funcione a curto prazo.


Mas cá entre nós, começar uma relação com jogos e fingir que somos o que não somos não é a forma mais assertiva de tornar-se íntimo de alguém, não é mesmo?


O tempo

O tempo diz respeito àquela espera que é essencial em tudo em nossa vida, mas que na maioria das vezes atropelamos, movidos pela ansiedade. E esse atropelamento não é raro nas relações amorosas.


A pressa em saber se o outro quer um relacionamento sério ou não, a pressa da conquista ou a ansiedade da paixão que não respeita o tempo são, sem dúvida, um veneno a qualquer relacionamento. Movidos por decepções antigas ou pelo imediatismo que vivemos em nossa sociedade, tendemos a não saber respeitar o nosso próprio tempo, o tempo para descobrirmos e compreendermos os nossos sentimentos, tal como os do outro. Somente o tempo é que nos é capaz de fazer perceber que tipo de relação se está plantando.


Atropelar o tempo, antecipar e buscar certezas na conquista não adianta nada, pelo contrário, findará qualquer coisa que esteja a começar.


Não há receita, mas temos exemplos em nosso cotidiano dos quais podemos tirar nossas lições. Se comprarmos um vaso, jogarmos lá uma semente e cuidarmos ao dar água, boa terra e colocar onde tenha luz, por mais que desejemos, só em seu tempo a planta virá a florescer. Portanto, o início dessa plantação – assim como nos relacionamentos -, requer entrega e cuidado, sem certeza nenhuma, no entanto, de que os frutos serão bons.


O espaço

A distância é fundamental em qualquer relação. É preciso tomar distância do que pensamos e desejamos, pararmos para refletir sobre nossos sentimentos e comportamentos, pois nem sempre estamos tendo a clareza dos fatos para uma escolha serena e sábia.


Espaço e tempo andam de mãos dadas; se não respeita um, não poderá respeitar o outro. Nenhum relacionamento sobrevive, ou sobrevive bem, se não houver respeito ao espaço e tempo dos envolvidos.


Uma relação onde já se começa sufocando o outro, exigindo e colocando responsabilidades no outro é como deitar um copo numa vela acesa- o fogo apaga.


O outro não é responsável por nossas decepções, por nossas ansiedades e medos. O outro não está ali para completar o que nos falta: não ponha sobre o outro a responsabilidade que é só sua.


Deixe que o outro seja ele mesmo e descubra por si só se ele/ela está suficientemente envolvido para continuar a relação ou não. Dê o tempo, mas não se esqueça de também dar o espaço suficiente. Mas o que seria então “espaço suficiente?” Nem pouco, que o outro não tenha espaço para se manifestar; nem muito, que o outro não saiba se será acolhido em sua entrega.


E o que fazer?

Não há fórmula, o certo é que espaço demais dá abertura pra jogos que ignoram o tempo e espaço de menos sufoca, atropela o tempo. No fim, parece que tudo é uma questão de se colocar na relação, ainda que sem garantias. Neste jogo da vida, as regras não são unilaterais, elas vão se construindo no respeito de cada movimento do outro e nosso, bem como da própria relação.


Quando as relações começam a se repetir e sente-se perdido, não deixe de buscar um auxílio profissional.

 

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ª Elaine Andrade licenciou-se em psicologia na Universidade Federal de São João del Rei e está a concluir o doutoramento em Ciências da Educação na Universidade do Porto – Atualmente realiza atendimentos na YellowRoad.

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