O stress matinal entre
pais e filhos: como lidar?

9 de Setembro, 2017 – Leticia Machado

O stress matinal entre pais e filhos:
como lidar?

Oito e meia da manhã, o relógio a mostrar a hora, o pequeno-almoço por tomar, a roupa por vestir, gritos, choro, birra, “já não posso mais com isso!”, “despacha-te!”, “anda lá!”. Cenário comum e que se repete em dezenas de lares portugueses. Rotina que se repete dia após dia. Será que passa com os anos? Será que os miúdos melhoram com a idade? Dúvidas, irritabilidade, culpa… E assim está montado o cenário perfeito para que a família comece a sentir que está a viver em stress constante. 

 

Para os pais, há ainda o acúmulo das tarefas profissionais e de manutenção da casa. Para os miúdos, o acúmulo dos conflitos na escola, da dificuldade em algo que está a ser ensinado e das tarefas para casa. Mas será que de alguma forma os comportamentos de cada membro da família acabam por alimentar o stress familiar? 

 

Sim e com certeza! Os filhos não raramente testam os pais para verem até onde podem ir, e não raramente exigem atenção através de coisas que irritam profundamente os pais. Por sua vez, os pais que sentem-se soterrados em obrigações não raramente dão uma ordem e eles próprios a desobedecem,  pedem para os filhos executarem uma tarefa e quando dão-se conta são eles próprios a executá-la.

 

 “Anda lá! Calça logo as sapatilhas! Temos que ir!” E… dois segundos depois está o pai ou a mãe em nervos a calçar as sapatilhas nos miúdos. Como isso alimenta essa situação? Simples, você, enquanto adulto, passa em um simples comportamento, a mensagem para a criança de que ela não tem capacidade de calçar as sapatilhas sozinha, que receberá muita atenção se fizer fitas a vesti-la, e que tampouco precisa obedecer o que diz porque, de qualquer maneira, ela fazendo ou não, a tarefa será realizada. E assim a mesma cena perpetua-se manhã após manhã. 

 

Mas, como resolver essa situação? Com treino. Treino para si e treino para os miúdos. Em um dia calmo em que não tenham horários a cumprir (como um fim de semana, por exemplo), tenha uma conversa honesta com os pequenos e faça uma proposta “tive uma ideia para que nós não tenhamos que discutir pela manhã!”. Proponha uma competição contra o relógio, por exemplo: “Vou colocar aqui o alarme e quando tocar tens que estar já vestido(a) e com as sapatilhas calçadas. Se conseguires terminar antes do alarme, vais ganhar um prémio!”. Para tal, coloque um tempo no alarme que saiba que será viável para o seu filho realizar a tarefa com sucesso (5 min, 8min). O que queremos aqui é que ele sinta-se capaz de executá-la. Ah! Mais importante ainda, não ajude! Deixe que ele faça sozinho, incentivando-o a cada etapa concluída com sucesso “Boa! Tás mesmo rápido, já conseguiste colocar a camisola! Fixe!! Agora já puseste as meias!!”. 

 

O prémio a ser dado nesse caso não precisa e não deve ter valor alto, podendo ser algo tão pequeno como um autocolante ou carimbos em uma folha. Depois, podem ser estabelecidas metas para a semana juntamente com os miúdos (a começar por metas mais baixas). Se os pequenos conseguirem vencer o alarme três vezes na semana ganham três autocolantes e esta soma de conquistas pode ser trocada por um prémio maior (um kinder surpresa, a escolha da sobremesa para o jantar, um jogo mais barato que queiram, enfim, algo que não tenha um valor muito alto mas que seja do interesse deles). Esses pequenos prémios vão promovendo motivação para a realização de tarefas e o desafio deve ser aumentado a cada conquista. Após duas semanas, conseguindo vestir-se sozinho e vencendo a meta de três vezes na semana, pode-se aumentar o desafio para conseguir fazê-lo cinco vezes na semana. 

 

Esse tipo de intervenção pode ser feita também para tomarem o pequeno-almoço pela manhã e qualquer outra tarefa, sempre incentivando-os com algum prémio pelo sucesso na execução, e, claro, com muita atenção! A verdade é que as birras e a postura opositiva não passam com os anos, nem com a idade. Muito pelo contrário, a tendência é piorar se não for tomada nenhuma atitude pró-ativa por parte de quem cuida. O que faz os comportamentos mudarem é treino, consistência por parte dos pais, regras e ordem. 

 

 Nesse sentido, os pais tem de ter atenção para não ensinarem justamente aquilo que não pretendem. Não raramente os pais gritam com os filhos pedindo para que os pequenos não gritem. Ora, o que estou a ensinar, se grito, é que ganha quem grita mais alto… Ao invés de ensinar que com gritos não se ganha nada, ensino que gritar é o importante. E, acredite, os miúdos vão seguir a gritar! O que devemos fazer é justamente o oposto, oferecer um elogio assim que a criança para de gritar “Fixe! Estou mesmo orgulhosa(o) de ti! Conseguiste te acalmar e parar de gritar!”, assim conseguimos ensinar que gritar não faz ganhar atenção, mas parar de gritar faz ganhar atenção e elogios dos pais! 

 

Essas dicas funcionam muito bem quando bem executadas de forma consistente. É claro que algumas crianças são sim mais desafiadoras, mas há sempre maneiras de ajuda-las a compreender regras e autoridade de forma positiva e não autoritária. Quem pode ajudar com mais precisão é um psicólogo especialista em atendimento infantil e de pais. 

 

Para além de promover rotinas menos conturbadas, um bom profissional ajuda na criação e manutenção de laços afetivos positivos nas famílias mesmo perante os momentos de crise. Se sente que sua rotina está a dar cabo do seu dia e da energia de sua família, procure ajuda. Acredite, as coisas não vão melhorar sozinhas e nem com o tempo. É necessário fazer modificações de forma organizada, consistente e coerente, e com ajuda profissional tudo fica mais claro e fácil.  

Leticia Leuze Machado

Leticia Leuze Machado

É Psicóloga Clínica, Pós-graduada em Psicopatologia da Infância e da Adolescência e Certificada Internacionalmente em Coaching. Realiza atendimentos na YellowRoad e tem larga experiência na área clínica com ênfase em psicoterapia infantil e adulta, gestão de stress e resolução de problemas.