É possível viver o stress de forma diferente?

Por Letícia Machadoª

Você provavelmente já ouviu falar que o stress deprime o sistema imunológico, faz-nos agir de forma mais agressiva e que, invariavelmente, leva a doenças cardíacas. No entanto, há cada ano que passa, a ciência avança em comprovar que o stress tem uma natureza positiva, que inclusive traz benefícios físicos e mentais1, embora essa informação seja com frequência ignorada.


De forma muito breve cabe explicar como funcionamos do ponto de vista fisiológico. Em uma situação de stress, nosso corpo fica inundado por cortisol e adrenalina, que são os responsáveis pelo aceleramento cardíaco e a constrição dos vasos sanguíneos – frequentemente associado com as doenças cardiovasculares. Liberamos também oxitocina, cuja função é estimular as conexões sociais; DHEA (Desidroepiandrosterona) e NGF (fator de crescimento neuronal), importantes para que o cérebro aprenda novas funções a partir de novas experiências.


O que as pesquisas mais recentes tem demonstrado é que a liberação de hormonas causadas pelas situações de stress podem melhorar a memória e a performance em tarefas cognitivas, melhorar a atenção e a velocidade de processamento da informação em nossos cérebros, além de proporcionar o que os cientistas chamam de “crescimento associado ao stress”. Esse crescimento diz respeito às modificações que resultam em indivíduos após passarem por situações stressantes, tais como: maior bem-estar, novas perspectivas de vida, maior consciência sobre prioridades, maior apreciação da vida e maior busca por dar significado as próprias experiências diárias.

Mais importante do que isso, o que as pesquisas tem apontado é que a maneira com que respondemos, tanto nas esferas fisiológica como comportamental, depende fortemente da maneira com que percebemos o stress ou a situação que nos gera stress – em psicologia chamamos isso de mindset. Os mindsets são como lentes através das quais vemos, organizamos e codificamos o mundo a nossa volta, sendo, portanto, os guiões para as nossas ações.

Uma das formas mais fáceis de estudar a resposta ao stress é através da medição de liberação de hormonas. O que as pesquisas tem mostrado é que as pessoas que tem medo ou acreditam que o stress é prejudicial apresentam uma maior liberação de cortisol perante as situações de stress, que, por sua vez a nível biológico está associada a maiores prejuízos no sistema imunitário e inflamações, e a nível emocional, a uma pior performance e maiores níveis de ansiedade. Em contrapartida, as pessoas que encaram o stress como uma oportunidade de aprendizagem e que interpretam, por exemplo, o coração acelerado e a respiração ofegante como sinal de o corpo está energizado e pronto para o desafio que está por vir, apresentam fisiologicamente maiores níveis de DHEA, que, por sua vez estão associados à redução dos níveis de ansiedade, de depressão, de doenças cardíacas e de neurodegeneração. As pessoas com mindsets positivos em relação ao stress tendem a apresentar maior bem estar, melhor desempenho em tarefas e maior sensação de autoconfiança. Esse perfil de resposta física acaba por ser bastante parecido com o de uma resposta de coragem!

A boa notícia é que os mindsets podem ser modificados através de intervenções específicas que se colocadas em prática podem alterar fisiológica e emocionalmente nossa resposta as situações de stress. Graças as substâncias liberadas naturalmente pelo nosso corpo, o cérebro pode se reinventar depois de uma situação stressante e, exatamente por essa razão é que deve ser treinado a ter respostas adaptativas que nos façam utilizar os nossos próprios recursos para lidar com os desafios impostos pelo dia a dia, porque, afinal, nem sempre podemos escolher viver ou não uma situação stressante.

Outra pista importante que o nosso corpo nos dá, e que a ciência comprova na prática, é que ao estimularmos a produção das outras substâncias produzidas em resposta ao stress, diminuímos a liberação de cortisol. Isso quer dizer que se estimularmos, por exemplo, a produção de oxitocina – naturalmente produzida numa situação de stress – estaremos aumentando a nossa chance de responder melhor a situação de stress. A oxitocina é a “hormona do amor”, é ela que faz com que queiramos estar perto, tocar, abraçar, ajudar e cuidar outras pessoas. Para estimular a produção dela numa situação de stresse, basta que procuremos apoio, que contemos a alguém como nos sentimos, que nos cerquemos de pessoas. Por isso, sempre que estiver a enfrentar um momento difícil procure pessoas em quem confia para liberar mais oxitocina e ajudar o seu organismo a produzir uma resposta fisiológica de coragem, pela sua própria saúde.


Em suma, cabe dizer que o que pensamos faz diferença a nível emocional, comportamental, e, sobretudo, a nível físiológico! A repetição de estratégias adaptativas, inteligentes e significativas pode representar a diferença entre ter uma vida breve e de baixa qualidade e ter uma vida longa, feliz e cheia de oportunidades de crescimento pessoal.

Para saber mais sobre o que a ciência tem encontrado leia aqui.

 

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ª Leticia Machado é Psicóloga Clínica e Coach Pessoal e Profissional com a grande missão de vida de ajudar as pessoas a enfrentar desafios, motivá-las a serem o melhor que puderem, fazer com que elas sintam-se bem consigo mesmas e com o mundo ao seu redor, e, sobretudo, encorajá-las a serem sempre MAIS – mais felizes, mais realizadas, mais bem sucedidas.

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